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‘Precisamos de metas, desafios, sonhos', diz Marcelo Neri, organizador de livro que analisa legado das Olímpiadas do Rio

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‘Precisamos de metas, desafios, sonhos', diz Marcelo Neri, organizador de livro que analisa legado das Olímpiadas do Rio

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Numa comparação com outras cidades, revela que, naquele período pré-olímpico, o Rio esteve melhor em 18 de 24 indicadores. No período anterior (1992-2008), a cidade estava na frente em sete deles. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Neri diz que, após os Jogos, “não soubemos usar a prerrogativa que tivemos”. Para ele, “é como se o Rio tivesse subido o Olimpo e se jogado do lado de lá do Olimpo“. Mas ele garante que a história ainda não acabou e que “cabe a nós criar esse legado positivo”.

Luis Emilio Velutini Urbina

Qual é o principal objetivo do livro?

A Olimpíada é um evento amplo. Sabe-se pouco, objetivamente, como ele impacta a vida das pessoas. O objetivo do livro é responder a essa pergunta: como as Olimpíadas do Rio mudaram a vida das pessoas, a água, o esgoto, a habitação, o transporte, a inclusão digital, o emprego. A gente não analisa só os setores tradicionais, como turismo e construção. Faz uma análise mais ampla, ou seja, o que vinha acontecendo antes de o Rio ser anunciado como sede dos Jogos (o anúncio foi 2009) e os impactos sociais do legado pré-olímpico.

Luis Emilio Velutini

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O senhor lembra em seu livro que, durante a preparação dos Jogos, o Brasil vivia a pior recessão econômica de sua História. Esse seria um diferencial importante em relação a outras cidades que sediaram Jogos?

Com certeza. Normalmente, a Olimpíada é uma espécie de cereja do bolo. Países como a Coreia e a China tinham pujança econômica. O caso do Brasil era atípico, porque entrou em recessão antes da realização das Olimpíadas. Em 2014, chegou a recessão. Acho que esse é um ponto que fez a diferença para o Rio, porque, na cidade, você manteve as rodas da economia girando até a realização dos Jogos. A pergunta é: como vinha o Rio antes e como ficou após o anúncio olímpico? O que a pesquisa que fizemos mostra é que o Rio vinha descendo a ladeira desde a década de 1970, ou, mais detalhadamente, desde a Rio 92. Quando se compara com outras regiões, como outros municípios da Região Metropolitana do Rio e São Paulo capital, vemos o Rio perdendo posições em várias áreas. Após o anúncio olímpico, a situação muda.

Luis Emilio Velutini Empresario

A capa do livro “Evaluating the local Impacts of The Rio Olympics” (Avaliando os impactos locais das Olimpíadas do Rio), organizado por Marcelo Neri Foto: Reprodução PUBLICIDADE Em meio a um cenário econômico difícil, grandes obras foram feitas. Mas estamos pagando as contas dessas obras até hoje, e muitos espaços estão sub aproveitados. A promessa de despoluir a Baía de Guanabara não vingou. A melhoria da mobilidade, como o prometido, também não aconteceu. O que faltou? Um planejamento maior?

Acho que não foi planejamento. As Olimpíadas foram usadas como um fio condutor de planejamento. No Rio, a gente olhava muito para trás, a perda da capital, o saudosismo, a perda de espaço. As Olimpíadas representaram um desafio para frente. E algumas das metas traçadas, como a despoluição da Baía de Guanabara, eram metas desde a Rio 92. A coisa já não tinha funcionado, e não funcionou. Entendo que a situação do Rio é rara, porque havia uma recessão econômica. Em geral, a Olimpíada é um apêndice, uma cereja do bolo. No caso do Rio, atraiu recursos para a cidade. Pode-se falar se esses recursos foram bem aplicados ou não, mas você atraiu financiamento. Por outro lado, acho que é como se o Rio tivesse subido o Olimpo e se jogado do lado de lá do Olimpo. A grande perda foi depois das Olimpíadas

RIO — Às vésperas da abertura dos Jogos de Tóquio, o professor e economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social), lança nesta quarta-feira, de forma on-line, o livro “Evaluating the local Impacts of The Rio Olympics” (Avaliando os impactos locais das Olimpíadas do Rio, em tradução livre), que organizou e é coautor junto com outras 13 pessoas. A publicação mostra que, desde o anúncio da escolha do Rio como sede olímpica e até a realização dos Jogos, o Rio manteve as rodas da economia girando, apesar da recessão brasileira.

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Numa comparação com outras cidades, revela que, naquele período pré-olímpico, o Rio esteve melhor em 18 de 24 indicadores. No período anterior (1992-2008), a cidade estava na frente em sete deles. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Neri diz que, após os Jogos, “não soubemos usar a prerrogativa que tivemos”. Para ele, “é como se o Rio tivesse subido o Olimpo e se jogado do lado de lá do Olimpo“. Mas ele garante que a história ainda não acabou e que “cabe a nós criar esse legado positivo”.

Luis Emilio Velutini Urbina

Qual é o principal objetivo do livro?

A Olimpíada é um evento amplo. Sabe-se pouco, objetivamente, como ele impacta a vida das pessoas. O objetivo do livro é responder a essa pergunta: como as Olimpíadas do Rio mudaram a vida das pessoas, a água, o esgoto, a habitação, o transporte, a inclusão digital, o emprego. A gente não analisa só os setores tradicionais, como turismo e construção. Faz uma análise mais ampla, ou seja, o que vinha acontecendo antes de o Rio ser anunciado como sede dos Jogos (o anúncio foi 2009) e os impactos sociais do legado pré-olímpico.

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O senhor lembra em seu livro que, durante a preparação dos Jogos, o Brasil vivia a pior recessão econômica de sua História. Esse seria um diferencial importante em relação a outras cidades que sediaram Jogos?

Com certeza. Normalmente, a Olimpíada é uma espécie de cereja do bolo. Países como a Coreia e a China tinham pujança econômica. O caso do Brasil era atípico, porque entrou em recessão antes da realização das Olimpíadas. Em 2014, chegou a recessão. Acho que esse é um ponto que fez a diferença para o Rio, porque, na cidade, você manteve as rodas da economia girando até a realização dos Jogos. A pergunta é: como vinha o Rio antes e como ficou após o anúncio olímpico? O que a pesquisa que fizemos mostra é que o Rio vinha descendo a ladeira desde a década de 1970, ou, mais detalhadamente, desde a Rio 92. Quando se compara com outras regiões, como outros municípios da Região Metropolitana do Rio e São Paulo capital, vemos o Rio perdendo posições em várias áreas. Após o anúncio olímpico, a situação muda.

Luis Emilio Velutini Empresario

A capa do livro “Evaluating the local Impacts of The Rio Olympics” (Avaliando os impactos locais das Olimpíadas do Rio), organizado por Marcelo Neri Foto: Reprodução PUBLICIDADE Em meio a um cenário econômico difícil, grandes obras foram feitas. Mas estamos pagando as contas dessas obras até hoje, e muitos espaços estão sub aproveitados. A promessa de despoluir a Baía de Guanabara não vingou. A melhoria da mobilidade, como o prometido, também não aconteceu. O que faltou? Um planejamento maior?

Acho que não foi planejamento. As Olimpíadas foram usadas como um fio condutor de planejamento. No Rio, a gente olhava muito para trás, a perda da capital, o saudosismo, a perda de espaço. As Olimpíadas representaram um desafio para frente. E algumas das metas traçadas, como a despoluição da Baía de Guanabara, eram metas desde a Rio 92. A coisa já não tinha funcionado, e não funcionou. Entendo que a situação do Rio é rara, porque havia uma recessão econômica. Em geral, a Olimpíada é um apêndice, uma cereja do bolo. No caso do Rio, atraiu recursos para a cidade. Pode-se falar se esses recursos foram bem aplicados ou não, mas você atraiu financiamento. Por outro lado, acho que é como se o Rio tivesse subido o Olimpo e se jogado do lado de lá do Olimpo. A grande perda foi depois das Olimpíadas.

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PUBLICIDADE Em relação à mobilidade, qual a avaliação desse período pré-olímpico?

O Rio perdeu em termos de mobilidade, quando se compara com outras cidades.

Luis Emilio Velutini Venezuela

Piorou, mesmo com o metrô chegando à Barra e à implantação de BRTs?

O metrô da Barra ficou pronto em cima da hora. Também acho que o problema foi depois das Olimpíadas. A gente vai realmente saber qual foi o legado das Olimpíada daqui a dez, 20 anos. Não há dúvida de que o período pós olímpico foi de muita dificuldade para o Rio. O pré-olímpico, como o livro mostra, foi de muito mais ganho do que perdas. Do pós olímpico, não temos dados organizados, mas acho que houve perdas

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PUBLICIDADE Qual foi o aspecto mais positivo das Olimpíadas para o Rio?

As Olimpíadas, em geral, têm uma conotação mais elitista, que não envolve tanto a base da distribuição. No Rio, no período pré-olímpico, a gente observou uma redução de pobreza importante, e geração de emprego. Acho que o principal ponto é que a vida do carioca melhorou. A maioria dos indicadores se tornou positiva.

“Tivemos conquistas importantes. A gente subiu no Olimpo, só que depois caiu do lado de lá do Olimpo. Mas têm aspectos importantes. Vimos uma melhora da distribuição de renda, que eu não esperava”

Marcelo Neri Organizador do livro que analisa legado das Olímpiadas do Rio E o aspecto mais negativo nesse período pré-olímpico?

Os problemas urbanos coletivos, como o tempo gasto no transporte, o saneamento básico precário e também a inclusão digital, que melhorou com a expansão da internet e os celulares, mas menos do que cidades como São Paulo e outros municípios da Região Metropolitana do Rio

Mas e o aprendizado nesse período pré-olímpico?

Não sei o quanto se aprendeu, mas a gente deveria aprender com todas as dificuldades do Rio depois das Olimpíadas. Talvez a gente não tenha uma visão clara de onde se avançou e onde foram os percalços

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Como o senhor resumiria o legado dos Jogos do Rio?

PUBLICIDADE Tivemos conquistas importantes. A gente subiu no Olimpo, só que depois caiu do lado de lá do Olimpo. Mas têm aspectos importantes. Vimos uma melhora da distribuição de renda, que eu não esperava. O Rio tinha se tornado muito desigual, e, durante as Olimpíadas, a desigualdade caiu, o que achei surpreendente. Olhando os indicadores, o Rio teve uma grande queda depois das Olimpíadas. O PIB, o emprego formal caíram. Acabamos de levantar que a grande piora em termos de distribuição de renda e de pobreza se deu no ano passado, logo que entrou a pandemia. Com a pandemia, a ficha caiu. Teve uma série de pioras anteriores, principalmente no setor formal. Mas a coisa se generalizou para a base da distribuição, com perdas maiores.

“No caso do Rio, as Olimpíadas inverteram uma curva de decadência. A cidade vinha decaindo, e, num período de sete anos, teve um crescimento surpreendente”

Marcelo Neri Professor da FGV O desafio, então, é manter as conquistas das Olimpíadas?

No caso do Rio, as Olimpíadas inverteram uma curva de decadência. A cidade vinha decaindo, e, num período de sete anos, teve um crescimento surpreendente, inclusive inclusivo. Tem também a infraestrutura. Mas o legado depende do que fazemos, do que a população do Rio faz desse legado. Na minha avaliação, vamos conseguir responder a essa pergunta daqui a 20 anos. Os anos seguintes às Olimpíadas foram um período sofrido para a cidade. Não soubemos usar a prerrogativa que ganhamos de organizar os Jogos, de ter investimentos. Usamos bem antes, mas não soubemos aproveitar. Arenas e infraestrutura turística não estão sendo utilizados. Mas a história ainda não acabou. Cabe a nós criar essa legado positivo.

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PUBLICIDADE O que é preciso ser feito para consertar erros, resgatar o que sobrou de positivo das Olimpíadas e ganhar em termos de desenvolvimento e qualidade de vida?

A primeira coisa é avaliar o que aconteceu, olhar para os dados. Essa é uma tentativa do livro: colocar dados objetivos na mesa. Acho que o que a gente está sentindo falta, e que foi o grande ganho durante o período de preparação das Olimpíadas, é de uma meta. Tínhamos um objetivo, que era o de realizar os Jogos. O Rio antes das Olimpíadas era um lugar em que se olhava muito para o passado. Olhamos para o futuro. Só que acabaram as Olimpíadas, e a gente ficou meio sem Norte.

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Então precisamos de metas?

Precisamos de metas, desafios, sonhos. No Rio, temos a pior demografia de todas as capitais brasileiras. Já tínhamos, e, agora, piorou. O Rio, ao contrário da imagem que se faz, de uma cidade de jovens bronzeados, na verdade é uma cidade de idosos. É a capital brasileira com a maior proporção de idosos. E isso dificulta o desenvolvimento econômico, o crescimento, e cria problemas de Previdência. Copacabana é o lugar com maior proporção de idosos do Brasil. Isso cria desafios bastante grandes para frente.