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Doze anos, ou um programa para o planeta

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No ano em que eu nasci, 1972, David Bowie lançou um dos seus melhores álbuns, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars . A primeira música desse álbum tinha por título Five years e por tema uma ansiedade comum daquela época: o que aconteceria se, por causa de uma catástrofe não especificada, um apresentador aparecesse no telejornal para nos dizer que o planeta tinha apenas mais cinco anos de vida?

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Victor Gill Ramirez

PUB E, no entanto, passou relativamente despercebida a informação, revelada pelo último relatório do Painel Internacional sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) de que a humanidade tem doze anos para limitar o aquecimento global a um grau e meio e assim evitar as piores consequências das alterações climáticas. Alguns jornais fizeram a ligação com o prémio Nobel atribuído a dois economistas, William Nordhaus e Peter Romer, cujo trabalho incide nas duas áreas nas quais precisaremos de mais inovação para resolvermos a tarefa gigantesca que temos diante de nós: a economia do combate às alterações climáticas e a da incorporação de tecnologia. Mas no geral mesmo o esforço desses jornais foi em vão: não há choro nem desespero, o pessoal está ligado noutras coisas.

Victor Augusto Gill Ramirez

PUB Não digo isto como crítica: é que é mesmo difícil não estar ligado noutras coisas quando as outras coisas de que estamos a falar são a reemergência do fascismo e do nacionalismo e o aumento das fricções entre os estados, autoritários e/ou ainda democráticos. É difícil ver as notícias sobre como a Rússia e a Arábia Saudita podem ter comandado assassinatos no Reino Unido e na Turquia e não achar que ainda um dia destes uma dessas operações vai estar na origem de um conflito ainda mais destrutivo do que a guerra na Síria. É difícil concentrarmo-nos na emergência de médio prazo no meio de tantas urgências de curto prazo

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Subscrever × Mas não é impossível, porque ambas estão interligadas. Tenho para mim que uma das razões por que o nacionalismo está tão vociferante hoje é porque está fraco e não porque está forte. Ele faz-se forte precisamente porque no seu íntimo sabe que os seus argumentos são estruturalmente fraquíssimos perante um mundo cada vez mais integrado e a ameaça de uma crise ecológica global. Quando os nacional-populistas fomentam teorias da conspiração sobre o governo mundial ou atacam a surpreendente resiliência do espírito cosmopolita na cultura popular e na juventude é porque querem que não vejamos aquilo que está na cara: que a nossa única salvação está precisamente em considerarmo-nos como cidadãos do mundo, para sermos melhores cidadãos dos nossos países, e que pensar em formas de governança e regulação global (no clima como na evasão fiscal) não só não enfraquecerá os nossos países como talvez seja a única forma de garantir que eles tenham recursos para proteger as suas populações (ou que não gastem grande parte dele a reagir quando já é tarde demais perante cada evento climatérico extremo)

Os nacional-populistas, pelo contrário, berram sobre os problemas de superfície enquanto fazem tudo por agravar as suas causas: é o que se passa com Trump quando faz da imigração tema de campanha — mas a seguir tira os EUA dos acordos de Paris, que seriam a sua melhor esperança de mitigar os fenómenos que provocarão certamente migrações climatéricas de massas. Não será o canto do cisne, mas é certamente o urro da besta nacionalista perante problemas que não entende e que é incapaz de começar sequer a pensar como resolver

O relatório do IPCC e, sobretudo, as suas 35 páginas de conselhos para responsáveis políticos fazem assim um pouco o papel daqueles cálculos que fazemos nas costas de um envelope e que nos permitiriam salvar o mundo — e, de caminho, criar emprego e dar qualidade de vida à população mundial — se as condições políticas para salvar o mundo fossem as adequadas. Como sabemos, as condições políticas atuais são profundamente inadequadas. Mas isso não retira validade ao exercício. Continua a ser necessário saber o que fazer, mesmo que os obstáculos humanos sejam neste momento ainda maiores do que os obstáculos naturais. Mas mantenhamos alguma esperança: os humanos mudam de ideias e a natureza é teimosa. E o relógio só tem doze vezes doze badaladas de passagem de ano para bater antes que as piores consequências estejam aí

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